Fichamento por: Daniel Medeiros Padovani, 17/05/2020.
Dona Lola é um romance da escritora brasileira Maria José Dupré, publicado originalmente no Brasil em setembro de 1949 pela editora Brasiliense, utilizando a grafia Dona Lôla e com a autora assinando como Snra. Leandro Dupré. Dona Lola é a continuação do romance Éramos seis, de 1943. | Álbum de Capas da Autora |
Dona Lola | Maria José Dupré | Editora: Ática | Janeiro 2020 - atualmente* | ISBN: 978-85-08-19596-1 | Capa: Elisa von Randow** | Prefácio: Bianca Ribeiro (Dona Lola e a atualidade de Maria José Dupré) |
*site da editora verificado em outubro de 2026 <Coletivo Leitor>
**Para compor a capa, Elisa von Randow utilizou imagens de EujarimPhotography (através do banco virtual de imagens Getty Images) e de Vadim Georgiev (através do banco virtual de imagens Shutterstock).
Dona Lola | Maria José Dupré | Editora: Saraiva | 1968 | Capa: Nico Rosso |
Dona Lola | Sra. Leandro Dupré | Editora: Saraiva | 1958 | Capa: Nico Rosso |
Dona Lôla | Snra. Leandro Dupré | Editora: Brasiliense | 1949-1953 | Capa: Lewy (Walter Lewy) |
Personagens:
| dona Lola (Eleonora) | Isabel (filha de Lola) | Felício (marido de Isabel) | Eduardo (filho de Felício) | Sílvia (filha de Isabel e Felício) | Carlos (filho de Isabel e Felício) | José Felício "Zezinho" (filho de Isabel e Felício) | Maria Helena "Lena" (filha de Isabel e Felício) | dona Genu (amiga de Lola) | Julinho (filho de Lola) | Maria Laura (esposa de Julinho) | Ivone | Lídia | Clotilde (irmã de Lola) | Olga (irmã de Lola) | Zeca (marido de Olga) | Vítor (filho de Olga e Zeca) |Alfredo (filho de Lola) | tio Damião | Inês | Glorinha | dona Prudencinha (moradora do asilo) | dona Tututa (irmã de Prudencinha) | dona Benevenuta "Venuta" (parteira)| Anatólio | Janina | seu Souto | Júlio César | Léia |
Republicação:
Dona Lola foi publicado pela primeira vez em 1949. O livro teve mais algumas edições na década de 1950 e 1960, pelas editoras Brasiliense e Saraiva, mas desde 1968 não era republicado no Brasil. Em 2020, após 52 anos da última edição lançada, o livro voltou em uma nova edição pela editora Ática.
Dedicatória:
Aos nossos valorosos "pracinhas" que, nos campos da Europa, lutaram por um mundo melhor.
Resenha:
Éramos seis foi publicado em 1943 e deu a Maria José Dupré o reconhecimento literário, tornando-se um dos livros de maior sucesso da literatura brasileira. Mas a obra termina deixando dúvidas: Como D. Lola envelhece? Onde está Alfredo? Isabel formará uma família? E Julinho? D. Genu continuará tendo afeição por mortos? Olga e Clotilde ainda vivem em Itapetininga? A fim de saciar a curiosidade do leitor, em 1949, a autora publicou Dona Lola, romance que dá continuidade à história da narradora-personagem. E, agora, setenta anos depois da primeira edição, a editora Ática relança a obra.
[fonte: Coletivo Leitor]
Resenha:
Dona Lola e a atualidade de Maria José Dupré (por Bianca Ribeiro)*
Traduzida para vários idiomas, adaptada para o cinema e para cinco versões televisivas, Éramos seis tornou-se um dos livros mais tocantes da literatura brasileira. Ao pensar nessa obra, sempre surgem comentários como: "Aquele livro me tocou, vi um pouco da minha família ali". É difícil definir o que mantém uma obra literária viva e a torna capaz de mobilizar as emoções das pessoas. Este prefácio tentará explicar por que Maria José Dupré ainda nos fala tão de perto.
Lembro de, nos anos 1990, na cozinha da casa da minha avó, assistir à novela das seis baseada na obra enquanto ela preparava a janta. Uma cozinha de casa suburbana do ABC paulista, comprada com sacrifício, como a da família Lemos. Mesmo em tempos de desconstrução de gêneros e modelos familiares, a história continua viva em muitas casas: seja pelo tom da narrativa, seja pela classe social que retrata, seja pelo ponto de vista feminino. Éramos seis é a epopeia da família nuclear urbana brasileira, e Dona Lola, o desfecho melancólico da vida de sua protagonista e narradora.
Questão central na obra é o caráter violento de Felício. Impaciente com os filhos, os agride física e psicologicamente sem motivo. Felício é o clássico pater famílias dos anos 1940 e 50: impecável como provedor, trabalhador incansável e, por isso, se sentindo legitimado no exercício de sua violência. Afinal, acreditava-se que quem coloca comida e dinheiro em casa tudo pode. As forças física e econômica se sobrepõem brutalmente ao respeito e ao afeto, e o que importa é que Felício, aos olhos dos amigos da família, é um pai exemplar. A situação das mulheres, por sua vez, é bem diversa: A maternidade é um fardo, a vida de dona de casa, repleta de tarefas repetitivas, uma condenação à dor e à infelicidade – e Maria José Dupré traz à tona essa realidade feminina tantas vezes silenciada e negligenciada pela literatura de seu tempo.
Cabe ainda ressaltar o retrato muito particular que o romance faz da Segunda Guerra Mundial, que afetou o Brasil de forma indireta em relação à Europa. Ela está presente de maneira difusa no romance: seja na questão do racionamento que a todos afeta ou no enriquecimento suspeito do filho Julinho. Mas a presença mais forte da guerra é sentida na descrição muito precisa que a autora faz da ansiedade de D. Lola na espera por notícias de Alfredo, o filho que foi combater. Conseguimos sentir com a protagonista o medo da morte de quem está distante e a angústia por notícias, narrada de modo palpitante.
O texto envolvente e de fácil leitura tem relação com a herança modernista já bem digerida dos anos 1940, década do amadurecimento do nosso romance de cunho social – basta pensarmos em Graciliano Ramos, Érico Veríssimo ou mesmo Monteiro Lobato, um dos primeiros a notar com muita perspicácia o talento e o tom "doméstico" e caseiro da prosa de Maria José Dupré.
E é nesse tom único que reside justamente a particularidade de Dona Lola: algo inédito na época, ela traz o ponto de vista da dona de casa para dentro da obra literária, conferindo grandeza dramática a janelas que batem, portas que se fecham, crianças que circulam pela sala. É o realismo doméstico, pleno de nostalgia, emoções e simplicidade, que então desponta em nossa literatura – realismo esse que se transformará em aventura metafísica nas mãos de Clarice Lispector. Com Maria José Dupré, o ponto de vista feminino na literatura brasileira solidifica sua voz narrativa e o espaço da casa conquista estatura literária.
[fonte: prefácio da edição de 2020, Editora Ática]
*Bianca Ribeiro é professora doutora em Literatura Brasileira pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP).
Fontes:
COLETIVO LEITOR. Dona Lola. Disponível em: https://www.coletivoleitor.com.br/livro/dona-lola. Acesso em: 17 maio 2020. [arquivo do link]
DUPRÉ, Maria José. Éramos seis. São Paulo (SP): Ática, 2020. [dedicatória | prefácio]
RIBEIRO, Bianca. Dona Lola e a atualidade de Maria José Dupré. In: DUPRÉ, Maria José. Éramos seis. São Paulo (SP): Ática, 2020. [prefácio]




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